"Nos últimos anos, Vizela habituou-se a viver em permanente ritmo de celebração. Da Feira do Bolinhol às Festas da Cidade, passando pela Noite Branca, Feira Romana, Cidade Natal, Festa da Juventude, Concentração Motard e outras iniciativas de várias associações locais, o calendário festivo Vizelense é um dos mais preenchidos do Vale do Ave.
A atração de dezenas de milhares de visitantes, anualmente, terá um efeito bastante positivo ao nível de receitas na restauração e no comércio local. Contudo, torna-se imperativo refletir sobre a outra face da moeda: a sustentabilidade deste modelo, a médio/longo prazo, e o seu impacto na qualidade de vida de quem cá vive.
A realização intensiva de grandes eventos no "coração" da cidade — nas zonas da Praça da República ou do Jardim Manuel faria, no Fórum Vizela e na Zona Ribeirinha — expõe vulnerabilidades estruturais que não podem continuar a ser ignoradas:
A Paralisia da Mobilidade Urbana: Numa cidade com uma rede viária afunilada e de elevada dependência do automóvel privado, o fecho sistemático das artérias centrais transfere o tráfego para vias secundárias sem capacidade de vazão. Sem um sistema de transportes públicos rodoviários eficiente, com horários alargados ou alternativas noturnas interurbanas, tanto visitantes como residentes são forçados a utilizar a viatura própria.
O Caos do Estacionamento: As bolsas muito limitadas de estacionamento periféricas, transformam o centro de Vizela num cenário de estacionamento abusivo sobre passeios, faixas de rodagem e acessos a garagens, gerando transtornos diários à generalidade dos moradores.
O Desgaste do Espaço Público: O impacto acumulado de dezenas de eventos anuais sobre os pavimentos, mobiliário urbano, jardins e áreas verdes exige um esforço constante de limpeza e manutenção pós-evento, constituindo um custo "invisível" suportado pelo orçamento municipal.
Fadiga dos Residentes e Repetição de Formatos: A proliferação de eventos com fórmulas semelhantes, com o passar do tempo, acarreta o risco de banalização e saturação. O ruído pela madrugada dentro e os condicionamentos de trânsito frequentes leva certamente muitos vizelenses a encararem as festas como um transtorno, do qual procuram afastar-se.
O Núcleo de Vizela do Bloco de Esquerda não quer apagar as luzes festivas nem retirar o apoio justo às comissões e associações que dinamizam Vizela. A questão central é procurar encontrar o equilíbrio e a priorização do investimento, com verbas do orçamento municipal.
Um concelho moderno precisa de festas que dinamizem a economia, mas precisa, em igual medida, de:
Reforçar as suas infraestruturas de mobilidade sustentáveis que desanuviem o centro urbano
Capacitar e estimular o uso de transportes alternativos, bem como garantir uma interoperabilidade eficaz com outros serviços públicos (CP, AVE Mobilidade);
Gerar sinergias com as empresas locais, investir na inovação e melhoria dos equipamentos culturais permanentes, robustecendo a riqueza criada anualmente, e não apenas nos dias de festa.
O sucesso económico da realização das festas não pode continuar a ser cobrado apenas na moeda do trânsito e do desgaste urbano, é urgente implementar soluções sustentáveis, e com benefícios a médio/longo prazo para Vizela.
Vizela merece continuar a festejar, mas merece, acima de tudo, uma estratégia urbana onde o brilho de uma noite não comprometa o funcionamento do dia seguinte.
Vizela, 31 de julho de 2026
O Núcleo de Vizela do Bloco de Esquerda


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